Bem vindos ao artigo sobre Artes Druídicas, o qual celebra as
habilidades tradicionais ligadas aos Druidas através da música, história,
locais sagrados e textos de autores clássicos.
O que é Druidismo? Será a
descrição de um druida através dos olhos de um único autor Grego ou Romano? Ou
a recriação de práticas religiosas (que talvez nunca existiram) seguindo uma análise
cuidadosa de contos e textos criados centenas de anos atrás, após a introdução
do Cristianismo na Irlanda? Ou será o reconstrucionismo do Druidismo através de
antiquários, poetas e descendentes destes? Será o Druidismo meramente a soma de
costumes locais e práticas da Irlanda, Escócia e País de Gales que relatam o
vento, madeira e água? É válido chamar alguém de Druida e ignorar todas as
tradições e idéias do Druidismo?
Quaisquer respostas às questões acima devem ser pessoal, baseada nas
verdades individuais que cada um traz de si para o mundo. Mas algumas idéias
correm através da maioria dos conceitos do Druidismo.
Primeiramente, temos a noção de que os Druidas tiveram algo de grande
importância a nos dizer sobre o mundo natural, respostas que obtinham através
de seu “diálogo” com a natureza, encontrando seus segredos através de suas
artes. Em segundo lugar, através de sua gramática (poesia, geometria e todo
corpo de conhecimento dos “Druidas Clássicos”), dualmente alva e negra, que
podiam mudar o mundo através do fogo sagrado da verdade e da criação. Nos
últimos trezentos anos, este tem sido o conceito de Druidismo mais discutido e
aceito no ocidente.
Através de seus próprios termos, o druidismo requer um estudo e
participação visceral no mundo. Não é algo encontrado na internet. Em
discussões na rede, na incessante reciclagem de meias informações, na fútil
discussão sobre arvores, que nunca saem da teoria, algo que nos da uma visão
vaga e distorcida da verdade sagrada, deixando de lado o resto do mundo
queimando.
Acredito que este artigo seja um dedo apontando para uma floresta, e não
a floresta em si. O druidismo deve ser descoberto e interiorizado em músicas
nas florestas, festas, acampamentos, numa pedra solitária no deserto, com o
canto dos pássaros o alvorecer, na assembléia de amigos ao redor de uma
fogueira (e porque não uma vela?).
Não que isto seja um argumento em favor de um druidismo
anti-intelectual. Longe disso, o druidismo depende da vontade de perceber as tradições,
músicas, consciência e todas as manifestações naturais que ainda restam no
local onde vivemos. Um “Druida em Potencial” não ganha nada em decorar listas
especulativas e intermináveis de Ogham, se ignorar o cacto, ou o Pau-Brasil ao
seu redor. Toda terra é sagrada e tem sua própria história para contar. O
Imbas, Awen e o Graal não necessariamente podem ser encontrados somente na Irlanda
ou em Gales, pois estes nutrem toda a existência. Eles sussurram em nossa
floresta Amazônica, nos Canyons no Colorado, dançam com as luzes da Savana e
até mesmo com os tornados. Ondas no mar podem nos ensinar muito mais sobre
druidismo do que o brilho de milhares de telas de computador. Viver com a
natureza, traçando e apreciando a geometria sagrada de folhas desdobrando-se em
padrões fractais é umas das grandes práticas do druidismo, assim como a
apreciação dos contos que nomeiam
terras, não meramente a Irlanda e Escócia.
Cosmologia Pessoal
A criação de uma cosmologia pessoal é um elemento crítico para o Druida.
Para aqueles que vivem nas costas marítimas ou em regiões de mata nativa é
fácil enxergar a tríade mar/terra/céu. Mas devemos lembrar que até mesmo o que
vivem em montanhas, desertos e grandes cidades podem encontrar maneiras de
adaptar até mesmo histórias do Graal para seus padrões, pois até mesmo neste
locais podemos vivenciar a natureza de nosso próprio corpo, e não existe nada
mais natural do que ele.
Enquanto é possível trabalhar a cosmologia e espaço de um local
desconectado da “natureza”, existe algo profundamente “não real” que tenta
descrever para alguns as estações de maneira que muitos não a vivenciam, a
“Roda do Ano”. A Pagã “Roda do Ano” dividida em oito festivais, desenvolvida
por Ross Nichols e Gerald Gardner, funciona bem para no clima do Hemisfério
Norte, que possui claramente as quatro estações. Já este padrão pouco funciona
(ou não funciona) para quem vive em terras tropicais, mediterrâneas ou climas
desérticos. (Isso sem citarmos que os oito festivais não nasceram juntos, tão
pouco eram todos celebrados pelos povos celtas).
O melhor conselho para estes é se desfazer das referências e adotar o
Almanaque de Plantio, a Tábua das Marés, um bom termômetro e um barômetro e se
o desespero for grande, arrume um astrolábio, uma bússola. Ou melhor, porque
não giz de cera ou tinta? Passe então a notar e estudar as plantas e as
estações em telas e cadernos de desenho, tente dormir a céu aberto, ou mesmo
com a janela aberta.
Fenômenos astrológicos podem marcar rituais ou certos elementos da
cosmologia pessoal de um druida, mas isto requer certa sensibilidade e
flexibilidade, além de estudar estes fenômenos de perto. (Eu mesma passei a
perceber estes fenômenos astrológicos graças a alguns amigos que estão sempre
por perto).
Existem alguns contos Irlandeses que preservam algum material de
características cosmológicas, como por exemplo, “Hamlet’s Mill”.
É muito claro, que livros de referência sobre Ogham ou tópicos similares
podem ser de grande valor nos estudos, mas nada substitui a experiência e mesmo
a meditação, que servem como guia cosmológico. (E é isso que estou fazendo ao
escrever este artigo).
Uma cosmologia é um ponto de vista sobre o qual Grandes e Pequenos
mistérios podem ser apreciados através da expressão local da Soberania na qual
um druida vive, mesmo que estes mistérios sejam impossíveis de ser explicados
completamente.
Cosmologias são maneiras de fazer o sagrado mais Óbvio dentro da vida,
conforme esta está sendo vivida. Anos de meditação, músicas e sonhos são
necessários para estabelecer uma geografia mítica. Este universo é orgânico,
repleto de números irracionais e paradoxos, assim como qualquer cosmologia que
o reflete.
Enquanto lavar roupas para você talvez não reflita grande valor na busca
do Druidismo ou do Graal, existem tradições rituais e artísticas mais pontuais.
(Já eu, adoro limpar a casa quando estou sozinha). Os mistérios nos presenteiam
independentemente da ação ou local sagrado.
O conceito de peregrinação sagrada que é compartilhado por várias
culturas pode ser de grande inspiração para muitos. Mas, porque um druida deve
se importar com algo além da Irlanda, Escócia, Gales e arredores? Pois muitos
druidas não vivem nessas terras, não estão ligados a esta ancestralidade
sanguínea ou herança cultural. E já que o Druidismo é baseado em princípios
universais, na filosofia da terra, estrelas e árvores... “que as
características locais tenham IMENSO PODER para moldar a gramática e corpo do
NOSSO DRUIDISMO”. Isto talvez até beneficie os druidas das Ilhas Britânicas,
fazendo com que eles reexaminem sua própria natureza e assim desenvolvam um
“Druidismo Melhor”. Afinal, ninguém é perfeito!
Aline Martins
Embaixadora da Loyal Arthurian Warband no Brasil
e membro da Order of Bards, Ovates and Druids - Inglaterra